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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O "Mundo Segundo a Monsanto" legendado




Segue link para o documentário da jornalista francesa Marie-Monique Robin. O filme, baseado no livro de mesmo nome, investiga o que está por trás da engenharia genética aplicada aos alimentos. Mostra não só as "maracutaias" armadas pela Monsanto para ter seus produtos aprovados sem os devidos testes, mas também retrata a devastação social que tais produtos provocam no campo. Muitos pequenos agricultores não tem condições de arcar com os custos dos herbicidas necessários para cultivar os trangênicos, na Índia mais de mil pequenos agricultores se suicidaram por não conseguirem bancar a produção. Outro ponto importante é o fato de uma única empresa ter controle de mais de 90% do mercado de sementes do mundo. Se por acaso a sua planta "cruzou" com uma transgênica devido a ação dos ventos, a nova semente transgênica será de propriedade da Monsanto e você deverá pagar royalties à ela.

Essa é uma empresa especializada em química, que assim como a Bayer, partiu para o ramo dos alimentos com um plano bem estruturado, algo passível de filme sobre teoria da conspiração. Simplesmente, é impossivel frear a proliferação dos trangenicos através da natureza, e isso a Monsanto sabe. Vale a pena assistir a esse belo trabalho de investigação que passa por EUA, Índia, México, Argentina e Brasil. Ainda mostra documentos e provas concretas contra a Monsanto, como manda o "bom jornalismo". Só a narrativa através do PC e internet que pode causar cara feia em alguns, mas isso não compromete nem um pouco a seriedade do trabalho - foi só um recurso técnico pra tornar a coisa mais interessante. Assistam e pensem a respeito. Nosso alimento está acabando, essa é a mais pura verdade. Os grãos naturais são cada vez mais substituídos por transgênicos. Esses grãos mutantes e seus herbicidas especiais podem estar diretamente ligados ao aumento nos casos de câncer e parkinson entre agricultores. Na Europa, colocaram um selo nos produtos que contém transgênicos, por aqui você nem escolha tem. E o governo brasileiro já aprovou algumas espécies de soja e milho mutantes, isso pode levar ao fim da diversidade alimentícia e ao fim dos alimentos livres de engenharia genética. Então, vem as mulheres da "Via Campesina" destruindo laboratórios de pesquisa transgênica e a imprensa brasileira as retrata como criminosas. Qual seria o verdadeiro crime? Quem está defendendo a sua saúde? Para pensar...

Documentário dividido em 12 partes. Segue o link:
Mundo Segundo a Monsanto

Veja também:

Entrevista realizada pela revista "Época" com a autora do livro e documentário

sábado, 1 de novembro de 2008

Descrição - Mendigo

Casaco batido, roto e esverdeado, combina com as calças de semelhante tonalidade. Uma imagem desbotada, aquele ar urbano, ou melhor, é como se fosse um camaleão com disfunção na camuflagem. Mistura o verde original de suas roupas com o cinza natural da cidade. Resultado é esse: um ser desbotado, lembrança do que foi um dia. Hoje, sua cor e identidade originais já se perderam, foram engolidas pelo ambiente. Os mais desatentos podem confundi-lo com um milico saudosista, daqueles que tira a casaca do armário no sete de setembro ou em alguma outra celebração da pátria amada e sai aos prantos pela rua. Seu andar cadenciado e relaxado logo nos faz perceber, não se trata do tipo militar. O Brasil não foi sua “mãe gentil”. O abandono é estampado em seu rosto. Quando termina o casaco, subindo pelo pescoço, já da para notar a barba mal feita e a face escura. A cor da pele é negra, os pelos ralos e o acúmulo de sujeira escurecem ainda mais a sua figura. Traços fortes delimitam o rosto e um bigode singelo aparece se misturando à sujeira. O cabelo completa a personalidade, sujo, comprido e grudado, há anos deixou de ser cabelo e se tornou massa sebosa no alto da cabeça. Em meio a tantos borrões, é difícil distinguir as marcas da vida das da falta de higiene. Porém, seu olhar não engana. Quase sempre longe, amarelado, parece navegar conforme a maré. Vive na rua, um dia de cada vez, na maioria das vezes um entrando no outro. Realidade confusa, difusa, gestos para o nada e conversa com o ar. A sua luta é a sobrevivência, o resto “que se foda”. Já se entregou na batalha da vida, flutua nas caóticas vias que cortam a cidade. Assim, quase sempre fora de si, as horas passam. Cada vez mais o cenário toma conta de sua personalidade, gradativamente o cinza sobrepõe o verde e o sujeito se perde na monstruosa capital paulista. Pessoas passam e não o vêem, ele já faz parte do ambiente como um poste ou uma lata de lixo. Porém, se fosse objeto estaria bem, não passaria despercebido e cumpriria função social. Seu drama é não ser objeto. Ele é algo muito pior para a sociedade atual. Do tipo que a cidade engole e ninguém se dá conta, é um ser humano que não produz, descartável, um ninguém.

O Produto é você! - Supervalorização da imagem

O papa é pop! O mundo é pop! A lógica é a do mercado, do consumo desenfreado, do culto à imagem e do vazio espiritual. Tudo é mercadoria. A incorporação e a penetração do sistema capitalista na vida das pessoas nunca foram tão brutais. A mídia (o chamado quarto poder) se ocupa de perpetuar esse modo de vida, difundir imagens e orientar o consumo. Oferece um complemento para a sua vida pacata. Publicidade, jornalismo e “lazer” se fundem nesse espetáculo monstruoso. Onde, diferentemente da Antiguidade os heróis são infinitos, fabricados e sepultados todos os dias em telas de tv, outdoors, programas de rádio, jornais, revistas e internet. Não precisam de feitos extraordinários para ocupar as telinhas e alcançar a tão desejada fama, basta rebolar, ir sem calcinha à quadra de alguma escola de samba, ficar enclausurado em uma casa com outras pessoas “comuns” enquanto tudo é filmado, enfim, as possibilidades são também infinitas.

Tudo isso é perfeitamente compreensível no dado momento em que a imagem foi colocada como ponto nevrálgico desse sistema superficial, onde tudo é consumível, fabricado e visível. A fama é status e reconhecimento social, não importa como foi atingida. A maioria quer ser o próximo “American Idol” e se sujeita qualquer coisa para ascender socialmente nessa sociedade. Portanto, o papel da mídia é fundamental nessa espetacularização, cabe a ela fabricar e vender as imagens que orientam ao consumo, desde escovas de dente elétricas até o último eliminado do “Big Brother Brasil”.

Alcançar alguma visibilidade em um meio de comunicação não era muito fácil, até os dias de hoje. A internet, com o youtube, myspace, orkut, blogs, flogs e etc. veio preencher essa lacuna do “self-made-icon”. Sendo um meio mais democrático, qualquer um com acesso a rede pode se lançar como mais novo ícone pop. A visibilidade e a fama nunca estiveram tão acessíveis como nos dias de hoje. Você, mero mortal, pode se tornar mais uma celebridade sem sair da sua casa. A fama está logo ali. Qualquer um pode virar mais uma imagem, um produto, conquistar a fama instantânea e ser consumido por milhares como você.

O mercado incorpora tudo e todos e está entre nós, em nossas relações sociais. A todo tempo presenciamos a sobreposição de espetáculos ao nosso redor. Desde o momento em que você escova os dentes com aquela pasta que combate 12 problemas dentários, passando pelo seu cereal matinal, pela rápida lida no jornal, com notícias espetaculosas e selecionadas, que garantem informar tudo aquilo que é preciso saber, na sua camisa nike, no seu tênis adidas, na sua coca-cola, no seu carro, nos outdoors, na tv, no rádio, na igreja, na sua casa, nas suas conversas, na sua vida. Tudo faz parte do espetáculo. Esse mundo grita: se você não faz parte do show, você não existe! Todas as suas relações sociais estão intermediadas por imagens, sem elas, nesse mundo, você não é ninguém. Nada mais plausível do que, em um mundo de imagens, querer ser mais um ícone e ser cultuado.

Toda essa cena caótica remete a face mais perversa da sociedade de consumo, que acaba por ser tornar sociedade do espetáculo. O fetichismo da mercadoria atinge o seu mais alto grau, onde o consumo traz felicidade. Na essência o homem acaba massificado, tratado como mais um consumidor, um número, perde sua identidade real e veste a fabricada, se torna a imagem, o produto. O espetáculo permanente preenche o vazio dessa sociedade dividida, esfacelada e desigual. Ele domina seu cotidiano, seja no trabalho ou nas horas de lazer e como qualquer outra indústria precisa da permanente renovação de seus produtos, imagens e ídolos. Está tudo em liquidação! Compre! Consuma! Seja o próximo “American Idol”!

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Narcocorridos - Corridos Proibidos




O “corrido” consiste na mistura de valsa e polca, acompanhada por violões, sanfonas, e/ou por metais. Ele está presente em diversos países da América Latina como Colômbia, México e Ilhas Caribenhas. No México, mais especificamente na região “Nortenha” (fronteira com os EUA), o ritmo continua popular e o que em outros tempos foi usado para retratar epicamente os feitos dos heróis da Revolução Mexicana, nas últimas décadas tomou o cotidiano perverso, a vida de matadores e narcotraficantes como inspiração para suas canções. Esse novo estilo de “corrido” recebeu o nome de “narco-corrido”. A Colômbia também apresenta seus “corridos prohibidos” para contar histórias do submundo dos traficantes, suas dificuldades no negócio, as intrigas entre os cartéis e confissões de crimes.

Nessa temática de bandidos e balaços cabe uma ligação com a literatura de cordel brasileira quando usada para celebrar os feitos dos cangaceiros. Assim como os atuais protagonistas dos “narco-corridos”, os cangaceiros (também foras-da-lei) tinham suas realizações estampadas nos folhetos de cordel. Por outro lado, quanto a forma final os gêneros não têm uma grande proximidade, pois os “corridos” em geral apresentam textos mais curtos, verdadeiras canções. Porém, é preciso levar em conta que o típico “corrido” é organizado em quadras ou sextilhas semelhantes às do cordel. Outro aspecto a ser considerado ao realizar tal aproximação é o fato dos “corridos” serem poesias cantadas e não necessariamente impressas, ao contrário da literatura de cordel que é impressa e por vezes musicada. Embora tenham algumas diferenças, ambos têm suas origens na literatura de cordel ibérica, sejam nos “pliegos soltos” espanhóis ou nas “folhas soltas” portuguesas.

Os grupos musicais de “narco-corridos” atraem multidões tanto no México quanto na Colômbia. “Los Tigres Del Norte”, do estado de Sinaloa e conjunto mais famoso do gênero, já vendeu milhões de discos e chega a se apresentar para cerca de 100 mil pessoas no México, tudo isso desde a década de 70. Esse fenômeno veio com a formação dos grandes cartéis de drogas, pois toda essa “narco-estética” é fruto das mudanças sociais, políticas e econômicas que acompanham essas organizações e sua distribuição de entorpecentes. Nos lugares esquecidos pelo governo, nas zonas onde o cartel cumpre o papel de Estado e o narcotráfico dita as regras da economia, a população encontra satisfação e um retrato do cotidiano nas letras dessa expressão musical popular.

Toda uma estética acompanha a canção, seja nos códigos impressos em tatuagens ou nas espalhafatosas roupas de couro, no melhor estilo “mariachi”, com chapéu, botas e cinto muitas vezes coloridos. Embora respeitados, autores e cantores muitas vezes acabam vítimas da própria violência retratada. Entre Junho de 2006 e Dezembro de 2007, 13 “corridistas” foram brutalmente assassinados. Os motivos ainda estão sendo investigados, mas ao que tudo indica foram serviços encomendados por cartéis inimigos. Bandas menos famosas diversas vezes são patrocinadas por cartéis para cantar seus feitos e maldizer seus inimigos e acabam como vítimas dessa guerra.

O movimento ainda traz símbolos de status semelhantes ao “gangsta rap” americano, são acessórios de ouro, carros potentes, armas, casarões, drogas e mulheres. Com isso, assemelha-se também com o “funk proibidão” brasileiro e com as “neomelódicas” (celebram a Camorra) do sul da Itália. Todos eles cantam aventuras do submundo e tem símbolos de poder capitalistas. Como nos últimos anos voltaram a ficar em evidência, cabe a reflexão: tais gêneros seriam o outro lado da moeda do hedonismo exagerado e da eficiência produtiva capitalista? Um lado mais esquecido e violento? Tudo indica que sim. Com grande sucesso entre os jovens que levam a “vida loka” ou “loca vida”, buscando uma vida rápida com conquistas materiais violentas e instantâneas, o fenômeno onde personagens subversivos são os heróis encontra respaldo. Mesmo distante das classes mais abastadas da sociedade, esses jovens não conseguem fugir do espetáculo capitalista e acabam sendo o outro lado, mas da mesma moeda. Um fato intrigante é que enquanto os “narco-corridos” acabam banidos das principais rádios mexicanas e da Baixa Califórnia (grande comunidade hispânica), o “gangsta rap” não pára de ser transmitido, vender discos e fazer clipes.

Sempre em busca de rápida ascensão social, poder e luxo a juventude inconseqüente reflete o ideal capitalista de aproveitar o máximo de tudo, da balada, da viagem, da noite, da droga e dos negócios, a tal eficiência de produção capitalista. Assim, também acabam esbarrando no crescente hedonismo presente nos últimos anos. O prazer é colocado em primeiro plano e acaba como um fim em si mesmo, “viva rápido e morra jovem”. Isso pode ser visto tanto nas camadas mais favorecidas da sociedade quanto nesses novos kamikazes do submundo. As principais evidências são o abuso das drogas e a fixação na rápida satisfação a qualquer custo. Com isso, essa entorpecencia aparece como escapismo da realidade absurda da sociedade atual.

A vida social nesses locais é cantada e pré-existe ao “narco-corrido”. Esse, no fim, é tachado de causador da violência pelas alas mais conservadoras, que preferem não enxergar toda a complexidade que envolve a questão. O modo de produção operante, diariamente, parece forçar cada vez mais os limites do planeta e da sociedade. A crise já está anunciada há alguns anos e esse modo de vida acelerado e inconseqüente reflete violentamente o ápice dos ideais capitalistas de competição, eficiência e auto-satisfação. Os fins são os mesmos, mas o caminho do pobre acaba sendo mais violento.